9.9.10

O primeiro texto sério e bonito deste blog. No fim do texto, alguns ficarão a chorar, outros nem por isso...

"O chapéu das memórias"

O homem de idade movia-se com a dificuldade de quem ao mesmo tempo é elegante. Esperava-o o banco de um jardim por trás do cemitério. Sempre o mesmo jardim. O mesmo banco e por trás, sempre o mesmo cemitério. A distância entre o passado e o futuro era ali muito curta, assim como acidentada. Se no mover rápido das damas, a intercalada frescura mental o fazia relembrar a juventude, os muros altos do cemitério como que se abriam, abraçando-o num gesto de bom anfitrião.

A sua mulher morrera de cancro.
As saudades eram suportadas pelo vento que lhe dificultava a leitura do jornal. Ainda ontem se lembrou dela e chorou apenas de uma vista. Embora velho, não gosta de chorar em público. Faz mal à humildade. Ele fora o primeiro a ficar viúvo e também por isso, sabe melhor que os outros que a morte fica para além daqueles muros. Amanhã é quarta-feira. É dia de visitar a campa da mulher e de lhe mudar as flores. Costuma fazer isso pela manhã, pela fresca, porque o incomoda visitar o futuro por livre e espontânea vontade. De tarde não joga damas porque está deprimido e precisa de tempo para ficar sozinho. Nessa tarde prefere ouvir rádio e comprar fruta.
As noites chegam sempre com o tirar do chapéu. Talvez pela última vez. Era um chapéu parecido com aquele que tinha quando conheceu a mulher. Comprou sempre iguais ou parecidos; os chapéus conservam melhor as memórias. E este era um bom chapéu. Colocou-o no bengaleiro onde sempre colocou as alegrias e as tristezas da vida.
Depois jantou, adormeceu e acabou por morrer…

Morreram dias mais tarde as flores da campa. Parece que choravam em silêncio, como sempre o fizeram.




6 sopradelas:

S* disse...

Hummm... uma morte solitária, revela o texto.

*XS* disse...

Como nos livros, aqueles que têm um final triste... são os que eu gosto mais. Porque se aproximam mais da realidade e porque o mundo é pintado de várias cores e não apenas de cor-de-rosa.

Gostei muito.

Mona Lisa disse...

Se morreu, significa que já cumpriu o que tinha vindo fazer nesta Terra.
Muito bem escrito, como sempre!
beijo

Luis Baptista disse...

eh pa comoveu-me. chorei, mas so de uma vista.

Campista selvagem disse...

É ténue a vasio que nos separa da morte, pior para os que não acreditam em segundas oportunidades,é por situações destas que mais vale aproveitar em quanto por cá andamos

Libertya... disse...

Algo inevitável... gostei imenso do texto.

Beijo libertyo